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Em Defesa da Inveja


“A inveja é um sentimento muito feio”, disse o Ângelo Firmino, conhecido mais commumente como Boss AC, em 2005 num dos hinos do hiphop tuga chamado “Hip-Hop (Sou Eu e És Tu)”. Mas será? Será a inveja um sentimento assim tão “feio” e indesejável? À sua evidência, devemos nós retrai-la para os confins da moralidade, na esperança que ninguém descubra que padecemos deste “mal”? Não existe mesmo nada de positivo que possamos retirar desta emoção tão… inevitável? Poderá a inveja vir algum dia a ocupar um lugar de utilidade na procura artística?

O que lerão a seguir é uma tentativa de provar isso mesmo - que a inveja pode ser, em certos casos benéfica. Se vos paira a questão: “Pedro, para escrever um texto deste género… deves sentir-te invejoso de alguém neste momento, certo?”

A resposta é um sóbrio sim, mas para já não interessa.

Para iniciar esta defesa, quiçá hercúlea, da inveja, é de todo o nosso interesse sermos capazes de a definir muito bem - uma vez que esta é erroneamente retratada, como, aliás, tem acontecido com vários conceitos nos últimos anos - de lhe delinearmos a acção, que tipo de inveja existe, em que contexto pode esta ser usada “estilisticamente”, etc.

A inveja, no inglês envy, é muitas vezes confundida com o ciúme, no inglês jealousy, e com o conceito de cobiça, no inglês couvetness. Comecemos pela primeira.

Inveja, diz-nos o dicionário da Porto Editora, é “o desejo de possuir algo que outra pessoa possui ou de usufruir de uma situação igual à de outrem”, é o “desgosto pelo bem alheio”.

Ciúme, diz-nos o dicionário da Porto Editora e passo a citar “é a inveja de alguém que usufrui de uma situação ou de algo que não se possui ou que se desejaria possuir em exclusividade”, e prossegue, indicando como sinónimo, inveja.

Cobiça, diz-nos o mesmo dicionário, é “um desejo veemente de conseguir alguma coisa, ambição, avidez.” e prossegue indicando como sinónimo, uma vez mais, a inveja.

Confusos? não é para menos. A língua portuguesa, com estes três conceitos, entrou naquilo a que chamamos lógica circular ou, como muitos também aprenderam, petição de princípio - uma falácia lógica em que a conclusão é justificada com a própria conclusão, ainda que muitas vezes com algumas diferenças linguísticas, como acontece aqui. Bem, um argumento de forma P, logo P é válido, uma vez que é impossível a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa, porém não é acrescentada nenhuma informação útil. Ao dizer que Ciúme e cobiça são sinónimos de Inveja, estamos, muito latamente, a argumentar que Inveja, logo Inveja, Ciúme, logo Inveja e Cobiça, logo Inveja são todos válidos e idênticos. Estamos a definir os conceitos com os próprios conceitos - como fez o Dr. Ibrahim Khendi no seu livro “Como ser um Anti-Racista” em que define Racismo utilizando a palavra racismo na própria caracterização do conceito (mas voltemos a este assunto em específico na próxima semana).

Bem, acredito ser escusado dizer que não é necessário estudar-se linguística para entender que estes três conceitos não são nem podem jamais ser sinónimos uns dos outros, ainda que partilhem certas nuances metalinguísticas e territórios semânticos.

Schimmel 2008 diz-nos o seguinte “Inveja é um sentimento de dor que uma pessoa experiencia quando percepciona que outro indivíduo possui um objeto, qualidade ou estatuto que ela própria deseja.”

Então qual a diferença entre estes três conceitos, aparentemente tão idênticos, e que aparecem tantas vezes como sinónimos uns dos outros?

Nós temos ciúmes daquilo que possuímos, inveja daquilo que outros possuem e cobiçamos o que outros têm. Cobiçar algo é desejar aquilo que outra pessoa tem mas sentir inveja é a vileza nociva que sentimos para como o possuidor de tal coisa. Inveja pressupõem a nutrição de um sentimento vil, de uma dor mesquinha. Por essa mesma razão é que existem inúmeros relatos, já desde Aristóteles, a relacionar a Inveja com o conceito de Schadenfreude - uma palavra emprestada do alemão que significa o prazer que se retira do infortúnio e da desgraça alheia.

Aristóteles, no seu livro Ética a Nicómaco, utilizou a palavra (creio ser esta a sua tradução em Português Europeu Padrão) epicaricidade e que se traduzia, por oposto imediato a dois outros conceitos propostos no mesmo texto, como alguém que tira prazer do mal de terceiros.

No livro “A Anatomia da Melancolia”, reeditado pela Quetzal em 2014, de Robert Burton, um escritor e professor inglês, ele diz-nos que a epicaricidade “é uma mistura afetiva de alegria e ódio” e que acontece quando nos “regojizamos perante o infortúnio de outrem ou nos contristamos perante a sua prosperidade.”

Por todas estas razões, a Inveja é amplamente encarada como uma emoção mais lamentável e indecente, daí a necessidade moral de a querermos esconder quando a sentimos.

A inveja sofre ainda de outro mal de caracterização, um que a levou a encerrar em si esta significado néscio e desprezável e que nasceu da religião.

Os 10 mandamentos, conhecidos também como Decálogo, são um conjunto de princípios fundamentais à Bíblia Hebraica e à fundação do Cristianismo e Judaísmo. Encerram em si normas, instruções de adoração e proibições morais, entre as quais encontramos o célebre décimo mandamento “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seus servos ou servas, nem seu boi ou jumento, nem coisa alguma que lhe pertença.”.

Ainda imerso em território religioso, lembremo-nos da história de Caim, no quarto capitúlo do Livro de Génesis. Santo Agostinho ou Agostinho de Hipona, filósofo e teólogo do séc. VIII, diz-nos “o que é a inveja senão o desagrado perante a felicidade de outros?” e descreve-nos o episódio da inveja fratricida de Caim no seu livro “A Cidade de Deus”: “Conhecido que foi por Caim que Deus tinha olhado com agrado para o sacrifício de seu irmão e não para o seu, devia arrepender-se e imitar seu bom irmão em vez de, orgulhoso, o invejar. Mas entristeceu-se e ficou de rosto abatido. Este é o pecado que sobremaneira Deus repudia - a tristeza pela bondade de outrem”.

“Quare contristatus es, et quare concidit facies tua?”

Porque é que te entristeces? Porque ficaste de rosto abatido?, pergunta Deus.

Muito bem, admito que não me pareça tarefa fácil criar uma linha justificável para a inveja, mas deixem-me contar-vos um pouco do porquê de me sentir assim.

Há uns anos escrevi um poema, que ainda não desvendei, chamado “produto”, onde digo “sou um produto em bruto do trabalho astuto das coisas vistas”. É um poema que critica a nossa cada vez maior e mais preocupante dependência de tudo digital, das redes sociais e dos produtos como telemóveis. Nascemos imersos já quase nesta realidade orweliana, em que tudo está ligado a toda hora a toda a gente. E essa ininterrupta constante faz com que muitas vezes percamos mais tempo a olhar para os outros do que para nós próprios. Ao invés de nos trabalharmos como se fossemos uma escultura, ao invés de esculpirmos o supérfluo, como disse Michelangelo, para libertar a estátua que está no interior do mármore, preferimos o ato descuidado, gratuito e infrutífero de vermos os outros colher o fruto do seu trabalho.

No meu caso, porém, esta inveja não vem atrelada com schadenfreude ou epicaricidade, não sinto qualquer gozo em desejar o infortúnio de amigos, colegas e companheiros de arte, só porque se encontram em situações mais prósperas que a minha. Antes, sou motivado por esta, chamemos-lhe, inveja benigna. A comparação é intrínseca ao ser humano e a criação de arte não vive solitária e independente do julgamento de terceiros. Posso dizer que a concepção do meu livro foi um ato egoísta, porque foi - até certo ponto - mas deixou de o ser quando o dei ao mundo. Chamais me poderia chamar poeta caso não o fizesse. Um pintor só o é quando o seu traço vê a luz do dia. Um escritor só o é quando alguém o lê. Um músico só o é quando outros são agraciados pelas suas composições. A efetividade artística, até ser desvendada ao mundo, para o próprio artista é só aquilo que ele sabe ser, da mesma forma que um advogado sabe ser advogado e um jogar de futebol sabe ser um jogador de futebol. Até um artista se mostrar, são todos, somos todos, como disse Álvaro de Campos, génios-para-si-mesmos-sonhando.

É de uma ingenuidade enorme achar que podemos viver fechados à competição artística benigna. Que podemos criar sem ter em alvo alguém. Podemos fazer caso do próprio Fernando Pessoa, indiscutivelmente um dos melhores poetas do séc. XX. Podemos argumentar que para ele escrever nunca foi um ato de competição, mas antes de descoberta artística. De articulação do mundo. De aprofundamento filosófico. E estamos certos em fazê-lo, porém nenhuma destas razões invalida o facto de ele próprio, o poeta que escondeu um dos maiores espólios que conhecemos dentro de um baú, ter procurado reconhecimento nos seus pares. Criou a Revista Orpheu, da qual editou 2 números. Publicou ainda em vida a Mensagem, obra maior da poesia Portuguesa. E quem diz Fernando Pessoa diz Da Vinci, diz Van Gogh, diz Basquiat, diz Jimmy Hendrix…

Comparamo-nos, benignamente, na esperança de que haja uma pressão ascendente suficiente para que nos possamos tornar mais competitivos. A inveja permite-nos melhorar as nossas habilidades. Ambicionar mais alto. Invejamos quem tem algo que desejamos possuir - seja esse algo atenção do público, dos media, de um certo grupo de pessoas, seja esse algo um local, um objeto ou até mesmo amizade com outras pessoas. E essa inveja é aprendizagem - aprender a retirar dos outros o que de melhor têm para que nos possamos armar de forma ainda mais derradeira e inevitável.

“O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.” e nós “temos sonhos, sonhos tais que escolhemos dormir para poder sonhar ainda mais. E ficamos sempre pelo sonho.”